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A Cabala da Inveja
 
Nilton Bonder

 
"Eu sou eu porque você é você;
 
E você é você porque eu sou eu, então, eu não sou eu, nem você é você; Porém, se eu sou eu, porque eu sou eu; e você é você, porque você é você, então eu sou eu e você é você.
 
E nós podemos conversar!"
 
Para haver conflito legítimo, "você deve ser você não porque o outro é o outro".
 
Ser justo não é desconhecer a diferença ou fazer apologias contra a dissensão, mas é cercar-se de todo o cuidado para que a discórdia seja legítima, sem projeções ou contaminações por parte do outro.
 
Ser justo é ser assertivo enquanto todo o interesse está voltado para o desejo de ser convencido do contrário, e não o oposto - esmerar-se para que a realidade se integre a nossa opinião.
 
"Estar com a razão", por um lado, é um sentimento a ser evitado, pois possibilita desvios e perversões, fortificando falsas percepções de si e dificultando toda a sorte de diálogo. Por outro, é a postura do sábio e do justo, pois saber posicionar-se verdadeiramente em nome do que se acredita ser correto, sem se permitir corromper por interesses e necessidades pessoais está entre os feitos de mais difícil realização para os seres humanos.
 
"Toda a discórdia que é feita em nome dos céus está destinada a permanecer; toda aquela que não é feita em nome dos céus, a desaparecer..."
 
As discórdias podem originar-se tanto no amor quanto no ódio. Isto ocorre quando os contendores respeitam valores semelhantes e, apesar de suas perspectivas diferentes, compartilham de compromissos comuns. Nestes casos há um incrível respeito tanto pela motivação quanto pela opinião do outro.
 
Estes compromissos dizem respeito a se "ter razão": se a tônica deste sentimento recai sobre o desejo de se encontrar a "razão", delineia-se um tipo de comprometimento; se a tônica estiver no verbo "ter", esboça-se outro tipo de compromisso.
 
A única forma legítima de alguém se colocar diante de uma questão, com o objetivo de iniciar um diálogo é atingir o complexo estágio de "saber que não está certo, porém ter a certeza de não estar errado".
 
Não saber se se está certo diz respeito a capacidade de ouvir e de querer buscar a verdade; já a certeza de não estar errado é a confiança em seus propósitos mais profundos.
 
Quem tem certeza de não estar errado é, na verdade, comprometido com valores que não estão emaranhados ou misturados aos interesses e necessidades pessoais.
 
A própria verdade está subordinada aos propósitos de sua busca. Não existe uma verdade absoluta, senão em relação a algo. Por esta razão, pessoas comprometidas com diferentes conjuntos de intenções não conseguem estabelecer relações, e não há diálogo.
 
Assim sendo, a verdade mais próxima da que idealizamos como sendo absoluta e universal é aquela sobre a qual conseguimos conversar, debater diferenças e, no respeito à opinião do outro, refinar posições.
 
Aquele que é comprometido de menos está diluído nos outros e nas opiniões dos outros, e não consegue "ser ele mesmo por ser ele mesmo. Por outro lado, quem é comprometido demais é corrupto e sua verdade não tem dimensão alguma, senão a sua. A verdade de cada um estabelece discórdias que não se dão em nome dos céus. São pequenas e seu destino é desaparecer.
 
Lidar com a expectativa de que se faça justiça em um conflito é algo extremamente complexo. A justiça, sim, se fará expressa, afirmam os sábios,mas no seu próprio tempo de interação e maturação. E mesmo que este tempo pareça ingrato, deixando pendentes certas situações inaceitáveis, se se tratar realmente de questões em nomes dos céus, permanecerão. Teremos sempre o conforto de saber que não serão encerradas até que tenham resolução.  
Origem: Mensagem postada no Fórum da PSinet, Sala Ética e Filosofia : http://www.br.inter.net/forum/divide.php?id_forum=15